Cristianismo Homeopático

Por Luís Henrique Toniolo Serediuk Silva

Um dos fenômenos visíveis sobre a história mais recente do cristianismo é a fuga em massa dos mais jovens, especialmente homens, em direção a outras formas de sabedoria de vida, onde procuram seu refúgio e as respostas para seus questionamentos.

Dentre essas sabedorias, uma das mais eloquentes é a linguagem coach, que combina elementos do estoicismo com a febre de produtividade do capitalismo contemporâneo. Essa linguagem é nossa conhecida – banhos frios, acordar de madrugada, ter uma vida quadriculada numa planilha, dez passos (ou três ou sete ou doze) para ter sucesso ou uma vida realizada –, e tem um apelo a mais para os homens, que têm uma disposição natural para o desafio, o difícil.

Mas por que, com essa diáspora, a linguagem cristã é considerada inepta para responder às questões existenciais desta geração? E por que, afinal, a linguagem coach tem sido escolhida por muitos como a alternativa mais viável para uma sabedoria de vida? Comecemos pelas origens da necessidade de uma tal linguagem, que estão intimamente ligadas a um fenômeno chamado “aburguesamento.”

Nas últimas décadas, a sociedade tem vivenciado um avanço técnico exponencial, inigualável com qualquer outro período da história. É cada vez menos necessário nos submetermos ao frio, ao calor, às doenças e à dor que elas trazem; a eficiência dos meios de transporte e de comunicação diminui em muito o esforço antes necessário para muitas tarefas; a automatização substitui gradualmente o trabalho manual; o mercado nos bombardeia com toda opção possível para o consumo, segundo o capricho do comprador.

Nenhum desses avanços é ruim por si só; pelo contrário. Mas eles trouxeram consigo uma overdose de conforto material que produz essa vida aburguesada. O nível de tolerância à dor de uma pessoa da nossa época é significativamente inferior ao de uma pessoa de um século atrás (para não falarmos nos séculos ainda anteriores). Não é exagero dizer que uma pessoa da classe média de hoje vive com mais conforto do que um lorde medieval ou um rei.

O aburguesamento nada mais é do que a entronização da acídia, de uma mediocridade de vida, de uma exigência cada vez menor de si. Essa mudança da experiência de vida, voltada para o conforto sensível, traz consigo a mudança do modo de vida, de linguagem, de princípios morais.

Em primeiro lugar, uma saturação de direitos. Tenho direito a tudo. Todos os demais, a sociedade, o Estado, têm um crédito insaciável comigo, com a satisfação das minhas preferências. Constantemente sou a vítima, o incompreendido, aquele que precisa ser compensado.

Em segundo lugar, uma falta de objetividade moral que produz uma moralidade do mínimo, uma atrofia ou nanismo moral: cada um vive como quer, desde que não atrapalhe os outros. Não há um conceito objetivo de vida boa, mas apenas a preferência arbitrária de cada um, que o mercado se empenha em satisfazer (e, claro, hipertrofiar as preferências arbitrárias). É uma vida de mariposa, fugaz, acelerada, de lâmpada em lâmpada, da satisfação de uma preferência à satisfação de outra.

Certamente, é fácil demais ter uma visão absolutamente pessimista, unilateral, chamar as novas gerações de “fracas”. Parece mais acertado reconhecer, como disse Peter Kreeft, que, se nossos antepassados se destacavam pelas suas “virtudes fortes” (coragem, fortaleza, honestidade), nossa geração cada vez mais se dedica às “virtudes suaves” (empatia, misericórdia, compaixão), ainda que se esquecendo das primeiras.

A linguagem coach, portanto, procura entrar como um resgate das “virtudes fortes”, da sabedoria antiga, de uma virilidade perdida de uma era de ouro. Porém, muitas vezes – e aqui expresso uma opinião pessoal –, se cria uma verdadeira caricatura de uma vida virtuosa, da virilidade, em que se busca a ostentação, o mero pertencer a um seleto grupo de iluminados, o serviço ao deus-mercado.

Agora já é possível entrar na análise do procedimento pastoral da Igreja, que muitas vezes incorporou as características dessa cultura aburguesada, talvez na expectativa de melhor dialogar com ela. Mas uma consequência direta dessa mudança de linguagem é que o cristianismo muitas vezes é tratado pelos seus próprios pregadores, conscientemente ou não, como mais um jeito de ser bom dentre outros; ou melhor, de ser “bonzinho.” Ser cristão seria o equivalente a pertencer a um clube de filantropia, um modo de “amar os outros” no sentido mais abstrato e distante possível (pois amar uma pessoa concreta e próxima é infinitamente mais difícil do que amar a humanidade). Em suma, uma versão religiosa da moralidade do mínimo. Este é o cristianismo tornado homeopático, a conta-gotas, para não ofender o delicado estômago dos ouvintes.

Porém, uma moral do mínimo produz homens mínimos, e o coração humano foi feito para a excelência (que é outra palavra para “virtude”). Quem mais tem autoridade para falar do coração humano, do homem em sua integralidade, é a Igreja, pois combina a sabedoria humana (filosofia) com a Revelação. Um trabalho pastoral que renegue essa dimensão da magnanimidade, da grandeza de alma, não é apenas contraproducente, mas autodestrutivo.

O que o cristianismo sempre disse de si, e o que o próprio Cristo disse, é algo completamente diverso dessa linguagem homeopática. As palavras são diretas, fortes, inequívocas, mandatórias, sem ambiguidade ou “poréns”. Ser cristão é passar por uma metanoia, uma mudança radical de mentalidade. É despir-se do homem velho para revestir-se do homem novo. É morrer não só para o mundo, mas para si.

Pois Cristo veio “trazer fogo à terra,” veio “trazer a espada,” e quem “põe a mão no arado e olha para trás,” quem “não pega a sua cruz”, quem não morre como o grão de trigo, “quem não odeia seu pai e sua mãe” por amor d’Ele, não é digno d’Ele. Cristo desde que nasceu, desde que foi anunciado, é “sinal de contradição”, Cristo crucificado é “escândalo para os judeus, loucura para os gentios.”

Cristo não é mais um entre outros. O cristianismo não é uma rendida aceitação do status quo, uma mera aceitação de si, um tapinha na cabeça, uma série de preceitos razoáveis. É tudo ou nada. Essa magnanimidade, esse caminho sem volta, essa Cruz, essa abnegação e esquecimento próprio, a morte dos próprios desejos, do orgulho próprio, fazem parte da essência do cristianismo. O coração humano deseja, como dizia São Josemaría Escrivá, “algo grande e que seja amor.”

Ao homem burguês se contrapõe, para adotar a tipologia de Christopher Dawson, o homem erótico. Que essa terminologia não escandalize: o homem erótico é o “varão de desejos” (Dn 10,11), homens como Francisco de Assis e Agostinho, pessoas com uma sede de perfeição espiritual, de horizontes amplos, capazes de se sacrificar pelo seu ideal – pois todo ideal exige sacrifício. O homem erótico é o contrário da “prudência” mundana, calculista, auto-interessada, que busca a satisfação própria. É o homem voltado para fora de si, para a doação, e não para a recepção.

O que a linguagem coach incorpora, com a profissionalite, os exercícios físicos, o banho gelado, os “dez passos para”, são sucedâneos da verdadeira grandeza de coração. São versões seculares da ascética cristã, mas uma ascética sem coração. O estoico moderno não é um homem erótico, mas um fatalista, um cumpridor, um batedor de pontos, que muitas vezes pode estar cultivando sua vaidade e seu auto-interesse.

A Igreja – e aqui me refiro não apenas ao âmbito pastoral, mas também ao apostolado pessoal dos leigos – não precisa adotar a linguagem coach. Isso incorreria num sério risco de pelagianismo, de autossuficiência e autocongratulação, que é completamente contrário ao Evangelho. Mais: é farisaico. O que Deus viu em Maria, mais excelsa do que os querubins, foi a humildade.

O cristianismo não precisa nem da linguagem homeopática nem da linguagem coach porque já é uma Nova, uma Mensagem, com um conteúdo bem definido, e a forma de sua mensagem é a vida de Cristo o testemunho de vida de cada cristão que procura viver em coerência com sua fé. É esforço, natureza, mas também é graça, gratuidade. Muito mais do que transformar-se, é ser transformado. Esse é o verdadeiro dom de línguas, fruto do Espírito, que faz com que o Evangelho, em cada geração, em cada cultura, seja sempre novo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *