O dízimo, prática de destinar uma parte da às necessidades da Igreja, possui uma longa história entre os católicos. Esta prática evoluiu ao longo dos séculos, dividindo-se em três fases distintas. Vamos explorar cada uma delas, desde os primórdios do cristianismo até os dias atuais, destacando suas características, mudanças e desafios.
Até o Século V: A Prática do Dízimo e a Liberdade Cristã
Até o século V, a prática do dízimo entre os católicos desenvolveu-se de maneira diferente em relação aos judeus. Embora a Lei de Moisés impusesse a obrigação do dízimo a Israel, os católicos dos primeiros séculos viam o Evangelho como a consumação das obrigações rituais. Assim, muitos líderes da Igreja não impuseram o dízimo como uma obrigação.
No entanto, a antiga literatura cristã registra exortações às ofertas. Os ministros do Senhor e os necessitados recebiam das primícias das colheitas. Essas contribuições provêm da caridade e do amor do povo de Deus. Portanto, não eram consideradas uma imposição jurídica, mas sim uma expressão de gratidão.
Um testemunho importante desse momento é a Didaqué, datada de aproximadamente 90/100 d.C. Nesse texto, a primícia dos produtos da terra é mencionada. O texto orienta a dá-las aos profetas e aos pobres. Importante notar que se fala em primícias, não em dízimos. Irineu, em suas reflexões, considerava o dízimo abolido, substituído pelo convite à generosidade.
A literatura de então reflete uma transição. A Didascália, datada entre 250 e 300, destaca a liberdade em relação à Lei de Moisés. Embora reconheça a liberdade dos cristãos, também enfatiza as obrigações de justiça e caridade. Esses textos ilustram a evolução do entendimento sobre a contribuição entre os fiéis.
Século VI à Revolução Francesa (1789)
Com a chegada do século VI, observamos uma mudança na prática do dízimo. A necessidade de sustentar a Igreja se difundiu e, com isso, os Concílios começaram a intervir. O Sínodo Regional de Tours, em 567, exortou os fiéis a oferecerem a décima parte de seus bens, seguindo o exemplo de Abraão.
Essa recomendação estabeleceu uma nova abordagem. Os bispos, agora como legisladores, começaram a definir o dízimo de forma mais rigorosa. Embora houvesse exceções, a maioria dos fiéis passou a ser chamada a contribuir. A justificativa era a necessidade de expiar os pecados da população.
O Concílio de Macon, em 585, avançou mais. A partir de então, a recusa em pagar o dízimo levou à excomunhão. Esse momento marcou a transição de uma simples recomendação para uma obrigação moral e legal. A difusão do sistema de dízimos baseava-se nas dificuldades econômicas da época.
Com a expansão do poder civil ao longo dos séculos, o apoio à legislação eclesiástica cresceu. Com Carlos Magno, em 779, surgiu a “lei de Heristal”, que exigia o pagamento do dízimo. Os infratores enfrentariam sanções civis. Essa prática teve repercussões significativas ao longo dos anos, estabelecendo um modelo que perdurou até a Revolução Francesa.
Da Revolução Francesa aos Dias Atuais
A partir do século XVIII, o dízimo enfrentou um forte desdém. A prática tornou-se impopular entre os fiéis. Os sighs que antes serviam às paróquias agora beneficiavam o alto clero. Essa desconexão gerou descontentamento e críticas. Além disso, muitos dirigentes religiosos, especialmente bispos e prelados, tornaram-se grandes arrecadadores de dízimos, enquanto presbíteros lutavam com recursos escassos.
Os economistas da época criticaram o dízimo. Adam Smith questionou sua estrutura, argumentando que não corresponderia a um verdadeiro imposto. E filósofos como Voltaire sustentavam que a prática não possuía legitimidade divina. Isso culminou em uma série de petições ao parlamento francês, clamando pela reforma ou abolição.
Em uma noite histórica de agosto de 1789, os deputados do clero renunciaram aos privilégios, incluindo o dízimo. Com o decreto promulgado por Luis XVI, a cobrança de dízimos se tornou extinta. Essa reviravolta impactou não apenas a França, mas toda a Europa. O sistema de dízimos foi abolido na maioria dos países até 1848, exceto uma parte da Itália que persistiu até 1887.
A extinção do dízimo caminhou ao lado do crescente espírito anticlerical da época. Abusos e distorções na prática contribuíram para que o dízimo se tornasse antipático ao povo de Deus. Esse sentimento foi exacerbado pelo advento do espírito capitalista, que ainda mais desacreditou o sistema.
Os Motivos que Justificam a Prática
Podemos, então, refletir sobre os motivos que justificam a prática do dízimo ao longo da história. Primeiro, a tradição cristã justifica o dízimo com base no Antigo Testamento. A terra e todos os bens pertencem a Deus, o que demanda que uma parte seja dedicada a Ele.
Em segundo lugar, os cristãos reconhecem o domínio universal de Deus. Todos os bens vêm d’Ele e devem ser dirigidos a Ele. Esse domínio abrange também os bens materiais, que, embora necessários, ocupam um lugar secundário. Portanto, a contribuição se torna uma expressão de dependência.
Terceiro, a oblação de bens é uma forma de honrar a Deus e cuidar dos irmãos necessitados. Esse dever é de natureza divina e natural. A regulamentação surge do direito eclesiástico, que adapta essa prática ao longo do tempo e conforme as necessidades da sociedade.
Outro ponto importante é o sentido comunitário da contribuição. Os bens não são para a acumulação individual, mas para o uso da coletividade. Essa solidariedade traduz-se em um testemunho vivo da fé cristã e do compromisso com o próximo, conforme Lucas 12:21.
Por fim, a responsabilidade compartilhada fortalece a missão da Igreja. Cada cristão deve colaborar conforme suas possibilidades. Assim, a contribuição se torna não apenas um dever, mas uma forma de participação ativa na missão da Igreja e na construção do Reino de Deus.
A Nova Abordagem do Dízimo no Brasil
No Brasil, a prática do dízimo passou por transformações significativas ao longo do tempo. Durante o período colonial e no Império, o dízimo era cobrado e administrado pelo Estado. Contudo, com a separação da Igreja e do Estado, essa prática enfrentou desafios.
A irmã da Igreja ficou privada de recursos regulares. Assim, surgiram novas formas de contribuição, como taxas e coletas. Essas mudanças buscavam atender às necessidades da missão evangelizadora. Porém, as contribuições passaram a ser vistas por muitos como uma comercialização dos sacramentos.
Atualmente, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) reflete sobre a restauração da prática do dízimo. O objetivo é promover um sistema mais justo e que resgate a essência do dízimo como expressão de fé. Essa nova abordagem busca revitalizar o sentido comunitário da contribuição.
Ao mesmo tempo, a CNBB reconhece as desigualdades econômicas e a necessidade de uma contribuição que respeite as diferentes realidades dos fiéis. Essa discussão busca reimaginar a prática do dízimo na Igreja do Brasil, promovendo uma maior participação de todos.