Por Antônio Ribeiro
A Divina Comédia está naquela ilustre estante dos livros que são muito mais admirados, comentados e elogiados – “é um dos marcos da produção cultural do ocidente”, soará a voz de alguém que se passa de entendido – do que propriamente lidos. É compreensível, nosso gosto literário prefere o texto corrido, sem hipérbatos, e não vemos quase nenhuma necessidade de se contar uma história usando rimas.
O século XIX, dos Balzacs, dos Flauberts, dos Zolas e dos Eças, moldou nossa maneira de entender uma história: o romance realista e naturalista foi para a humanidade literata como o formato verticalizado e curto do tiktok foi para a produção dos vídeos – o algoritmo (que na época era operado pela extinta raça da crítica literária) passou a selecionar só esse tipo de narrativa e a epopéia, os romances em versos, o picaresco, as maravilhosas mistery plays, os terríveis autos dos moralistas mordazes e hipócritas do seiscentismo, tudo isso ficou em segundo plano, uma curiosidade obsoleta, como o mármore rosa de algumas igrejas de Roma.
Na época, a Comédia – sabe-se que o predicado Divina que hoje compõe o título é posterior, obra de Bocaccio, outro grande do Trecento, que lhe atribui o epíteto num comentário hoje clássico – era algo de novo.
É claro, conheciam-se as comédias desde, pelo menos, dois mil anos antes de Dante. A separação clássica entre narrativa trágica e narrativa cômica, feita por Aristóteles, já havia se tornado lugar comum: a primeira termina em morte e a segunda em casamento. O novo era a língua. A Comédia foi toda composta em italiano vulgar, no dialeto florentino nascente, semi-macarrônico, em que falavam não os oradores, filósofos e bispos, – que preferiam o Latim clássico – mas no qual falavam comerciantes, pulhas, desdentados, camponeses, e os outros desvalidos do mundo.
A Comédia era a história da peregrinação última que começa numa selva confusa e tenebrosa, e termina na dissolução de tudo diante da presença do amor que move os céus e as estrelas. Todos sabem que é mais ou menos assim: Dante é guiado pelo Inferno e Purgatório pelo poeta Virgílio, e ao fim é levado até o Paraíso na companhia do seu amor de juventude, a casta Beatriz, até ser levado a contemplar a beatitude infinita e inesgotável de Deus, no último dos céus empíreos. Tudo isso escrito num idioma vulgar, na língua da boca-pequena, no idioma que ecoa não nos documentos oficiais, mas entre os muros desse gigantesco vale de lágrimas que é a existência entre os homens.
A meia voz dos dialetos vulgares, utilizada para descrever a mais sublime das jornadas. O curioso é que fala-se muito sobre o início da jornada, e quase nada sobre o resto. O Inferno, depois de uns oito séculos de publicação do poema, tem quase exclusividade das menções (ouve-se quase que exclusivamente a expressão Inferno de Dante, nunca Paraíso de Dante, ou Purgatório de Dante). O nosso Otto Maria Carpeaux comenta, em algum lugar, que o Paraíso é o ápice da obra, mas que pouquíssima gente o leu. E o Purgatório, alguém conhece, alguém sabe o que acontece a Dante no monte em que as penas dos pecadores vão sendo aos poucos diluídas, por conta, principalmente, das orações dos vivos que os amavam?
Em Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq escreve a história de um homem que não consegue ter relações afetivas, amorosas, ou mesmo sexuais com mulheres porque é feio. Não há uma razão de tipo metafísico, uma especulação dos elementos estruturais que explicam a razão desse ser humano não conseguir se relacionar afetivamente com o mundo: ele nasceu feio e desprezível, e não tem uma personalidade muito agradável. Ponto final. No fim do livro, o personagem percebe que sua vida perdeu o sentido, e que “são apenas duas da tarde”, o ponto meridiano do dia, que simboliza logicamente o meio da vida, o mezzo del camino dantesco. A vida se esvazia e o dia mal começou. No fim, tragédia.
No final do seu último romance, Aniquilação, um personagem moribundo morre feliz ao poder expirar enfim enlaçado em alguém que ama inocentemente, burramente, alguém com quem era incapaz de, meses atrás, sequer dividir uma refeição. A mulher amada diz que a morte pode ser derrotada com “mentiras maravilhosas”, se ambos prometerem se encontrar após a morte, seja no paraíso em que o protagonista foi ensinado a crer (sua família é de camponeses católicos e a irmã é uma tradicionalista quase radical), seja numa outra vida reencarnada em que o Wicca da esposa apregoa, e o livro termina sem que o mistério de espionagem que alavanca a trama fosse resolvido.
A nossa fé não é uma mentira maravilhosa. É a verdade mais crua sobre a realidade da morte: que ela pode ser vencida e superada.
A luta incessante contra a morte, ou melhor, contra a indignidade explícita da morte (morte digna é quase sempre um ideal hollywoodiano que passa a ser atualmente o grande motor do tosco raciocínio moral da defesa da eutanásia, por exemplo) é o verdadeiro domínio da luta humana, que só pode ser aliviada se sentirmos o amor de alguém para conosco. Se nos abrirmos para receber o amor, se aceitarmos a misericórdia, se nos fizermos pequenos e nos percebamos moribundos e dependentes.
No fim de Aniquilação, moribundo, o personagem está muito mais feio e desprezível do que o de Extensão do Domínio da Luta, e ainda assim encontra a gratuidade do afeto de alguém. No fim, Dante é levado para o Paraíso pela mão por Beatriz. Essa gratuidade é a última esperança dos homens, que queremos mais que tudo e por último, como diria Goméz-Dávila, “que Deus seja injusto para conosco”.
Desse tipo de história, sabemos muito pouco – no fim das contas, o perdão e a gratuidade é algo que pouco nos interessa. Procuramos antes o triunfo, a vitória do espírito humano indomável diante das atribulações. Procuramos mais ainda a justa destruição daqueles que consideramos irredimíveis – principalmente a de nós mesmos. Cremos no Inferno que merecemos, jamais no Paraíso que nos é dado. Não são poucos os Padres da Igreja que nos ensinam que o Inferno é uma escolha deliberada, manifesto máximo de nosso orgulho. Por isso, não me impressiona quem diz “prefiro morrer pelos meus princípios do que ceder!”.
Aqueles que estão no inferno, lá permanecem porque preferiram seguir os seus princípios de justiça do que os da misericórdia infinita de Deus.